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Foto do escritor: Fabíola Grimaldi
Fabíola Grimaldi
há 3 horas
5 min de leitura
A Ética Mora Nas Pequenas Escolhas

Trabalhar com um Programa de Integridade coloca o farol da ética no nosso dia a dia. E uma
das expectativas que acabamos gerando é que, quando falamos de ética, quase sempre as pessoas imaginam que estaremos rodeados de grandes dilemas, dignos de uma boa trama mexicana.
A imagem projetada é de corrupção, fraude, conflito de interesses, abuso de poder, decisões difíceis de uma liderança ou situações em que alguém precisa escolher, quase cinematograficamente, entre fazer o certo e fazer o errado. É como se a ética fosse a personagem principal, esperando uma grande ocasião para entrar em cena.
Só que, na vida real, convenhamos, raramente a ética vem acompanhada de uma trilha sonora emocionante.
A verdade é que, na maior parte do tempo, as nossas escolhas éticas aparecem nas situações mais comuns e corriqueiras do dia a dia. Na forma como respondemos a uma mensagem ou a um colega de trabalho. Naquela informação que recebemos e decidimos não compartilhar com alguém ou com a equipe. No crédito que esquecemos de dar àquela pessoa que criou a ideia. Ou até mesmo na maneira como falamos sobre uma pessoa que não está presente na conversa.
É justamente aí que a ética começa a ficar interessante.
Porque, no final das contas, a ética não mora apenas nas grandes decisões que tomamos durante a nossa vida. Ela também está nas pequenas escolhas que fazemos todos os dias. E é sobre isso que este artigo vai conversar.

Nem toda escolha ética vem com uma placa avisando
Um dos grandes desafios de falar sobre ética é que costumamos reconhecê-la quando o dilema é grande, mas nem sempre quando ela faz pouco ou quase nenhum barulho. Diante de uma fraude financeira evidente, por exemplo, é muito fácil perceber que existe uma questão ética envolvida. Diante de uma situação grave de assédio, também. Agora, quando não há uma regra clara dizendo exatamente o que pode ou não pode ser feito, o nosso radar ético já começa a ficar um pouco desorientado.
O fato é que as situações cotidianas não carregam uma placa dizendo: “Atenção, você está prestes a tomar uma decisão ética”.
Aliás, seria ótimo receber uma notificação assim na nossa cabeça, não é? Mas, como essa opção ainda não existe, temos que lidar com situações éticas em meio à rotina, às reuniões, às conversas de corredor e àquelas respostas que, às vezes, precisam de cinco minutos de prudência antes de serem enviadas.
E é justamente nesse território mais silencioso que começamos a encontrar justificativas para tranquilizar a nossa própria consciência, especialmente quando não percebemos o caráter ético das pequenas decisões. É quando aparecem argumentos como “todo mundo faz”, “não vai prejudicar ninguém”, “é só dessa vez” e, claro, o clássico dos clássicos: “ninguém vai saber”.
O curioso é que, quando precisamos justificar demais uma escolha para nós mesmos, talvez já exista ali alguma coisa que mereça ser observada. Afinal, temos uma habilidade bastante particular para encontrar boas razões para aquilo que queremos fazer, e é justamente aí que a conversa sobre ética começa a ficar ainda mais humana.

Somos excelentes advogados das nossas próprias escolhas
Nós somos muito bons em encontrar justificativas para aquilo que queremos fazer, quase como advogados construindo uma excelente tese de defesa, principalmente quando estamos envolvidos na situação. No entanto, quando outra pessoa pratica exatamente a mesma conduta, curiosamente, nossa capacidade de análise ética costuma ficar muito mais rigorosa.
Na verdade, carregamos um pequeno tribunal dentro de cada um de nós, mas com uma peculiaridade interessante: quando se trata de julgar a conduta dos outros, somos promotores bastante eficientes; quando precisamos avaliar as nossas próprias escolhas, assumimos rapidamente a defesa e, se for necessário, com direito a hora extra para encontrar bons argumentos.
Por isso, a ética não pode depender apenas do conhecimento das regras. Conhecer a norma é fundamental, especialmente nas organizações, mas isso não resolve todas as situações que enfrentamos. A regra pode estabelecer limites e orientar comportamentos, mas nem sempre será capaz de oferecer uma resposta pronta para cada circunstância da vida real.
É nesse espaço que entram a consciência, o julgamento e a prudência. Porque, entre aquilo que podemos fazer e aquilo que escolhemos fazer, existe um território que nenhuma regra consegue ocupar completamente. E talvez seja justamente nele que as pequenas escolhas revelem muito mais sobre nós do que imaginamos.

Integridade é uma construção silenciosa
A construção da integridade no mundo corporativo pode até começar pelos normativos e instrumentos de ética, mas acredito que uma cultura ética se constrói, de fato, pela repetição das escolhas e dos comportamentos.
Dificilmente uma instituição resolve, em uma terça-feira qualquer, enviar um ofício informando que, a partir daquele momento, todos podem abandonar seus princípios norteadores. O que realmente acontece no ambiente de uma organização é que determinados comportamentos inadequados vão sendo, pouco a pouco, normalizados. Existe um caminho até lá, e esse caminho costuma ser pavimentado por pequenas permissões.
Uma exceção hoje. Uma omissão amanhã. Um “deixa isso para lá” na semana seguinte. Depois de algum tempo, aquilo que antes provocava desconforto começa a parecer normal.
O fato é que o movimento contrário também acontece. Cada vez que uma instituição enfatiza, valoriza e prioriza comportamentos éticos, ela também está fortalecendo um determinado padrão de comportamento. Talvez uma campanha de integridade, uma ação de conscientização ou uma conversa sobre ética, quando observadas isoladamente, possam parecer pequenas ou até irrelevantes. Quando repetidas e, principalmente, acompanhadas de comportamentos coerentes, porém, começam a formar algo muito maior.
Porque aquilo que, no indivíduo, reconhecemos como caráter, nas organizações ganha outro nome: cultura.

A cultura também mora no corredor
Existe uma parte da ética e da integridade que não cabe em documento algum, porque ela está presente na cultura e na vida real das organizações. E não, não estou dizendo aqui que não devemos investir em códigos de ética, políticas, treinamentos, canais de denúncia, controles, programas de integridade e mecanismos de governança. Tudo isso é indispensável.
Mas a ética aparece mesmo é na vida real, porque a cultura organizacional também é construída por essas pequenas mensagens do cotidiano. Na forma como as pessoas são tratadas em uma reunião, no comportamento de uma liderança diante de um erro, nas conversas de corredor, no que é permitido passar sem qualquer questionamento e até naquilo que todos percebem, mas preferem não perceber.
Por isso, não basta perguntar quais valores estão escritos na parede ou publicados no site institucional. Talvez seja mais revelador observar quais comportamentos são recompensados, tolerados, ignorados ou corrigidos quando ninguém está fazendo uma apresentação sobre cultura.
É ali, entre aquilo que a organização diz e aquilo que efetivamente permite no dia a dia, que descobrimos o que ela realmente considera importante.

A ética quase nunca recebe aplausos
Há algo particularmente interessante na ética cotidiana: grande parte dela acontece sem plateia. Ainda assim, conseguimos perceber quando ela está presente.
E o fato de essas escolhas serem, muitas vezes, invisíveis não significa que sejam irrelevantes. Cada decisão facilita, de alguma forma, a próxima. Aquilo que repetimos começa a se tornar familiar; aquilo que toleramos começa a parecer aceitável; e aquilo que praticamos continuamente começa a fazer parte de quem somos e dos ambientes que ajudamos a construir.
Por isso, talvez esperar pelos grandes dilemas para pensar sobre ética seja esperar demais.
A ética já estava acontecendo antes. Ela acontece no cotidiano. Estava naquela conversa, naquela reunião, naquele e-mail, naquela informação que chegou até você, naquela pequena vantagem que apareceu, naquele erro que poderia ser escondido ou na maneira como você tratou alguém que não tinha nada a oferecer em troca.
Não precisamos viver todos os dias como se estivéssemos diante de um grande julgamento moral. Seria cansativo trabalhar em um ambiente corporativo assim e, provavelmente, insuportável para quem convive conosco. Mas talvez possamos prestar um pouco mais de atenção às escolhas que fazemos quase sem perceber.
Porque, no fim, a ética pode não morar apenas nas grandes decisões que um dia contarão a nossa história. Talvez ela more, principalmente, naquelas pequenas escolhas que ninguém viu.
E que, escolha após escolha, vão silenciosamente definindo quem estamos nos tornando e que tipo de ambiente estamos ajudando a construir ao nosso redor.

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©by Fabíola Grimaldi

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